A água potável no Brasil vai acabar? Com essa pergunta em mente, o
Instituto Trata Brasil, em parceria com a consultoria EX ANTE, produziu o estudo “Demanda
Futura por Água em 2050: Desafios da Eficiência e das Mudanças Climáticas”. O material tem
como objetivo projetar cenários de demanda futura de água nas moradias brasileiras em 2050,
apontando as principais variáveis que influenciam as diferentes tendências de crescimento do
consumo.
A ampliação de oferta de água, vinda com a universalização dos serviços de saneamento, é uma
das componentes da expansão no consumo de água projetada. As demais componentes estão
associadas à expansão demográfica e ao crescimento econômico. Fatores como a temperatura
das cidades, umidade relativa do ar, número de dias de precipitação, urbanização e tarifa
também possuem forte influência na oferta e demanda de água nas cidades.
O QUE AFETA O CONSUMO DE ÁGUA?
O Brasil é o quinto maior país do mundo, com uma área de mais de 8 milhões de quilômetros
quadrados e mais de 200 milhões de habitantes (IBGE, 2023). Dada essa dimensão, é natural
que as tendências de consumo de água variem de uma região para outra no país. De acordo
com os modelos estatísticos do estudo, quanto maior o grau de urbanização de uma cidade,
maior o consumo diário per capita de água. A cada aumento de um ponto percentual na
população urbana do município, espera-se um crescimento de 0,96% no consumo de
água.
Outros aspectos que afetam o consumo de água são a tarifa e a temperatura. Foi constatado
que grandes variações de preço estão associadas a pequenas variações na demanda, o que
reflete um comportamento típico de serviços com preços regulados. Além disso, a temperatura
máxima das cidades também é um fator relevante para o consumo, interferindo de forma positiva
no nível de demanda: quanto mais quente, maior o consumo per capita diário. Para cada grau
Celsius adicional, a demanda por água cresce 24,9%. A umidade relativa do ar interfere no
consumo per capita de água: quanto maior a umidade relativa do ambiente, maior o consumo.
Na média das cidades brasileiras, a cada aumento de um ponto percentual na umidade relativa
do ar, o consumo per capita de água cresce 3,6%.
O número de dias de precipitação também impacta a oferta per capita de água: cidades com
chuvas mais frequentes estão associadas a níveis de oferta mais elevados. Em média, nas cidades brasileiras, a cada dia adicional de chuva na média mensal, o consumo per capita de
água aumenta em 17,4%. Assim, municípios em áreas tropicais, com temperaturas elevadas ou
localizados próximos ao litoral, apresentam maior oferta de água em relação a cidades situadas
no semiárido brasileiro. Estas regiões, embora também registrem temperaturas elevadas, têm
pouca precipitação, o que ocasiona restrições na oferta de água nas áreas de cerrado e
caatinga.
STATUS DO CONSUMO DE ÁGUA NO BRASIL
Segundo dados do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA), em 2023
foram consumidos 10,7252 bilhões de m³ de água. Esse volume corresponde a uma média diária
de 175,38 litros por pessoa no país, incluindo a quantidade de água perdida na distribuição.
CRESCIMENTO E ESTIMATIVAS
Para estimar a demanda hídrica até 2050, foi necessário, em primeiro lugar, estabelecer os
cenários de expansão demográfica e de crescimento econômico. O cenário demográfico baseiase na projeção das taxas de fertilidade, mortalidade e fluxos migratórios líquidos para o período
de 2023 a 2050. Projeta-se uma taxa de expansão demográfica no Brasil de 0,1% ao ano
nesse período, valor 0,8 ponto percentual inferior ao observado entre 2000 e 2023. Essa taxa
média anual é resultado da redução sistemática das taxas de expansão demográfica ao longo
desses anos.
As variáveis de saneamento evidenciam que o avanço no acesso a esses serviços contribui para
o crescimento sustentado do salário médio nas cidades brasileiras. A presença de água tratada
para 100% da população pode elevar em 0,75 ponto percentual a taxa de crescimento do salário
médio, em comparação com uma cidade sem abastecimento de água. Por outro lado, as
estimativas indicam que a universalização da coleta de esgoto para 100% da população tem o
potencial de aumentar em 0,98 ponto percentual a taxa de crescimento do salário médio, em
relação às cidades sem serviços de coleta. Além disso, a universalização do tratamento de
esgoto pode elevar o ritmo de crescimento do salário médio em 1,25 ponto percentual,
comparando-se a uma cidade sem nenhum serviço de tratamento de esgoto.
Por fim, vale destacar que as variáveis de saneamento indicam que o avanço da infraestrutura
eleva o crescimento sustentado do PIB per capita das cidades. A presença de água tratada para
100% da população possibilita uma taxa de crescimento do PIB per capita 4,55 pontos
percentuais acima da taxa de expansão de uma cidade sem abastecimento de água a seus
cidadãos. De outro lado, as estimativas indicam que 100% de coleta de esgoto pode elevar em
0,84 ponto percentual a taxa de crescimento do PIB per capita relativamente às cidades sem
serviços de coleta, ao mesmo tempo em que a universalização do tratamento pode elevar o ritmo
de crescimento em 1,18 ponto percentual comparativamente a uma cidade sem tratamento de
esgoto.


