Modelo que consiste no reúso de resíduos e materiais promove uma espécie de “ganha-ganha” para os negócios e consumidores finais, reduzindo os desperdícios e o impacto ambiental. Conheça iniciativas desenvolvidas no Rio Grande do Sul.
Em um contexto de produção cada vez mais próximo de práticas sustentáveis, a economia circular obtém espaço na operação das empresas. Com iniciativas que vão desde o reaproveitamento de água até a reutilização de resíduos para fabricação de outros insumos, esse modelo promove uma espécie de “ganha-ganha” para os negócios, meio ambiente e consumidores finais, segundo especialistas.
Na prática, a economia circular visa a uma produção na qual os recursos são reaproveitados ao máximo dentro das cadeias, diminuindo desperdícios e reduzindo a agressão ao meio ambiente.
— A economia circular tem como conceito próprio sair do modelo linear de produção e começar a aproveitar os resíduos gerados pelo processo produtivo e retroalimentar as cadeias produtivas, transformando-os em novos produtos e trazendo maior eficiência para uma gestão de recursos naturais — destaca a fundadora e CEO do OMA Ativos Ambientais, Indiana Rolla De Leo.
Impacto financeiro
A executiva salienta que esse modelo promove um aumento da eficiência na gestão de recursos naturais e conservação do planeta. Isso diante da redução da necessidade de extração de matérias-primas virgens do meio ambiente. Além disso, também aumenta a viabilidade econômica dos empreendimentos, conforme a CEO do OMA:
— Pense, antes você estava gerando um resíduo que você pode reintroduzir em processos. Esse resíduo vira uma fonte de receita para a empresa ou de abatimento nos custos de compra de nova matéria-prima.
Casos práticos
Antes restrita a nichos e iniciativas pontuais, a economia circular hoje está presente em diversos negócios, como no setor de transportes, saneamento e biocombustível.
Em Caxias do Sul, a Marcopolo apresenta ações como, por exemplo, a reutilização de solventes de limpeza e das sobras de perfis de alumínio. O solvente sujo passa por um processo de destilação e é usado novamente na linha de produção, com a mesma finalidade original.
A companhia também usa o resíduo de limalha de alumínio gerado na fábrica no setor de produção de moldes. Outra iniciativa é a reutilização de sobras de perfis de alumínio, que são reprocessadas. Além disso, a Marcopolo devolve algumas embalagens de produtos químicos aos fornecedores para reenvase e posterior retorno. Alguns resíduos de madeira também são reprocessados e retornam como novas embalagens.
— Essas iniciativas reforçam a eficiência operacional da empresa ao reduzir custos, otimizar processos e agregar valor aos materiais. Para os clientes, representam maior segurança, transparência e alinhamento às práticas de sustentabilidade. Para o meio ambiente, significam menor extração de recursos naturais, redução da geração de resíduos e mitigação de riscos de passivos ambientais — destaca Edson Silvano da Cunha, gerente de manutenção, meio ambiente e normas da Marcopolo.
Cunha também cita a Unidade de Processamento de Resíduos (UPR) da empresa como outro diferencial. No local, são realizados processos de controle, triagem, descaracterização e compactação de resíduos industriais. Esse trabalho aperfeiçoa o reaproveitamento de resíduos.
A Corsan Aegea, responsável pelo saneamento na maior parte dos municípios gaúchos, também trouxe a economia circular para dentro de sua estrutura. Entre as práticas nesse sentido está a transformação de lodo em recurso. A empresa desenvolve iniciativas para dar um uso mais sustentável ao lodo das Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) e de Água (ETAs), retornando ao ciclo produtivo, reduzindo a disposição em aterros.
— Só em 2025, destinamos mais de 17 mil toneladas de lodo para compostagem em todo o Rio Grande do Sul. É uma iniciativa de escala estadual que transforma o resíduo de saneamento em soluções com benefício ambiental — atesta Liliani Cafruni, diretora de Sustentabilidade da Corsan.
Além dessas iniciativas, Liliani cita também o processo de logística reversa de uniformes e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Em parceria com cooperativas regionais, a companhia promove a transformação de EPIs e uniformes descartados em novos produtos.
A economia circular não fica restrita ao ambiente interno das empresas
O papel do biocombustível
A economia circular não fica restrita ao ambiente interno das empresas. Em alguns casos, a reutilização de insumos e o reaproveitamento nas linhas de produção envolvem diversos agentes. A gaúcha fabricante de biocombustível Be8 é um dos símbolos desse modelo.
A empresa de Passo Fundo reaproveita o óleo de cozinha para a produção de biodiesel. Para isso, trabalha com uma rede de coleta interna e externa, que conta com parcerias envolvendo cooperativas de catadores, associações, poder público e entidades.
— Eu pego o óleo de cozinha usado, que é um resíduo sólido urbano, e ele vai para a produção tanto do biodiesel quanto desse biocombustível. Depois, ele vai ser consumido em veículos que utilizam diesel e em geradores — afirma a gerente de sustentabilidade da Be8, Ana Cristina Curia.
A gerente destaca que a companhia também realiza outras ações de economia circular, como reúso de água em outras atividades da planta e reaproveitamento de uniformes.
Espaço para eventos
A CEO do OMA Ativos Ambientais afirma que a economia circular tem uma série de oportunidades no país. No entanto, para avanço efetivo, é necessária uma estruturação dos processos que envolvem esse modelo. Um desses pontos é uma melhor condução de incentivos, segundo a executiva:
— A economia circular tem, sim, grandes lacunas no país ainda em suas implementações, mas também tem grandes oportunidades. O que falta, eu acho, são políticas concretas de incentivo à economia circular. Existem algumas, mas, ao meu ver, ainda são insuficientes para trazer, especialmente, a sustentabilidade financeira para os processos.
FONTE: GZH


